sábado, 17 de setembro de 2011

A GENTE SE ACOSTUMA


A GENTE SE ACOSTUMA
Marina Colassanti


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e não ver vista que não sejam as janelas ao redor. E porque não tem vista logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma e não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, se esquece do sol, se esquece do ar, esquece da amplidão.

A gente se acostuma a acordar sobressaltado porque está na hora. 
A tomar café correndo porque está atrasado. 
A ler o jornal no ônibus porque não pode perder tempo. 
A comer sanduíche porque não dá para almoçar. 
A sair do trabalho porque já é noite. 
A cochilar no ônibus porque está cansado. 
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.


A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. 
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. 
E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. 
E não aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: 
“hoje não posso ir”. 
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. 
A ser ignorado quando precisa tanto ser visto. 
A gente se acostuma a pagar por tudo o que se deseja e necessita. 
E a lutar para ganhar com que pagar. 
E a ganhar menos do que precisa. 
E a fazer fila para pagar. 
E a pagar mais do que as coisas valem. 
E a saber que cada vez pagará mais. 
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter 
com que pagar nas filas em que se cobra. 

A gente se acostuma a andar nas ruas e ver cartazes. 
A abrir as revistas e ler artigos. 
A ligar a televisão e assistir comerciais. 
A ir ao cinema e engolir publicidade. 
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável 
catarata dos produtos. 

A gente se acostuma à poluição, às salas fechadas de ar condicionado 
e ao cheiro de cigarros. 
À luz artificial de ligeiro tremor. 
Ao choque que os olhos levam à luz natural. 
Às bactérias de água potável. 
À contaminação da água do mar. 
À morte lenta dos rios. 

Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galo de madrugada, 
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta por perto. 
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer. 
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma 
dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta lá.
Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce 
um pouco o pescoço. 
Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua o 
resto do corpo. 

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. 
E se no fim de semana não há muito que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem muito sono atrasado.

A gente se acostuma a não falar na aspereza para preservar a pele. 
Se acostuma para evitar sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.


A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de 
si mesma.  



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